O romance Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, que aborda um episódio nuclear do período despótico português, a guerra colonial angolana, foi publicada num momento em que a censura não mais existia em Portugal. Lobo Antunes faz parte do grupo de escritores que, ou mantiveram seus escritos engavetados durante a repressão, ou os conceberam logo após a queda da ditadura. O romance tem na História um elemento constitutivo fundamenta, e vem para elucidá-la, senão para ajudá-la a escrevê-la.
Publicado pela primeira vez em 1979, em Lisboa, o livro teve vinte edições em português e foi traduzido para o francês, inglês, alemão, castelhano, holandês, italiano, romeno, norueguês, sueco, dinamarquês e finlandês. Tem sido aclamado pela crítica internacional como uma obra-prima, sendo seu autor considerado um dos mais importantes escritores europeus da atualidade.
A obra é de classificação complexa, pois reúne características de várias tendências do romance contemporâneo. Por um lado, temos uma narrativa intimista, ou seja, de investigação psicológica; por outro, uma intenção histórico-documental, já que a ação dá conta de um momento nevrálgico da realidade de Portugal e de Angola. A objetividade e a crueza de certas passagens, algumas recebendo tratamento naturalista, são mescladas a outras de subjetividade intensa, em que o registro emocional é dominante.
A literatura portuguesa passou por vários estágios evolutivos diante da História nacional. Num primeiro momento, norteou-a o orgulho pátrio, especialmente representado pela grande epopéia Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. A decadência que se seguiu ao período das grandes navegações demorou a ser assimilada, e quando o foi, a partir do Romantismo, veio acompanhada de uma noção utópica de que seria possível resgatar o passado glorioso do país.
Esse espírito também está presente no Realismo, especialmente na última fase de Eça de Queirós. Até mesmo no monumental poeta modernista Fernando Pessoa é possível detectar tal ponto de vista: a obra Mensagem conclama ao resgate da vocação para a grandeza que seria inerente à condição da pátria. Foi, portanto, tardia a tomada de consciência do processo colonial e dos efeitos nefastos de se teimar nele. Esse romance é um grito de “basta” aos métodos e ações perpetrados pelo colonizador.
Desse modo, a matéria narrativa de Os Cus de Judas é antiépica, pois, contrariamente ao espírito desse gênero, não glorifica os grandes empreendimentos de conquista portugueses e seus métodos, mas critica-os duramente. O romance é organizado em 23 capítulos “nomeados” de “A” a “Z”. O narrador-protagonista, um médico lisboeta cujo nome em momento algum é expresso, é convocado para servir em Angola durante a Guerra Colonial. Arrancado de seu cotidiano de homem sensível e culto, ele tolera os horrores da guerra, acalentado pelas recordações do passado.
Já de volta a Lisboa, ele conta a uma amiga ocasional, Maria José, passagens e sua vida pregressa, detendo-se sobretudo no relato da experiência como médico durante os 27 meses que serviu em Angola. Narra-lhe, portanto, aquilo a que o próprio Lobo Antunes chamou “a dolorosa aprendizagem da agonia”. O leitor freqüentemente se confunde com a interlocutora, Maria José, pois, como ela, “ouve” o narrador sem contestá-lo.
O médico passa a contar sua trajetória de horrores desde sua convocação. Lembra as tias velhas que nutriam a esperança de que o exército “o fizesse homem”. Aliás, a família e o Estado têm no romance uma função comum: ambos atuam como repressores do sujeito. São instituições avessas ao prazer, à felicidade, esterilizadoras das potencialidades do indivíduo. Agem de maneira truculenta e despótica com o propósito nefasto de minimizar o ser humano, impondo-lhe referências inflexíveis e cerceadoras de comportamento que, por sua vez, facilitaria o controle da sociedade.
O narrador-protagonista vai se afastando de Lisboa: Mafra, Tomar, Elvas, Santa Margarida, Madeira... Chega, afinal, ao Pontão da Cruz Quebrada, em Luanda. Enfronhou-se na miséria do lugar: tipos sombrios, prostitutas mal-ajambradas; comia refeições repulsivas em “cabarés safados”. Às vezes acordava em quartos de pensão sem saber direito como havia ido parar lá; vestia-se em silêncio, buscando os sapatos, para não perturbar o sono da moça de cujo nome já não se recordava.
Vivia entre lembranças esparsas de Lisboa, uma Lisboa quase mítica, tamanha a distância que dela o separava. Ele estava a dez mil quilômetros da cidade natal, da mulher grávida, dos irmãos de olhos azuis. Os trabalhos eram intensos: cadáveres, homens com as pernas arrancadas por granadas e minas. Na tarde de 22 de junho de 1971 estava no Chiúme, o último dos cus de Judas ao Leste, quando recebeu pelo rádio a notícia de que sua filha nascera. Comoveu-se: pensava obstinadamente na criança.
Acontecimentos trágicos se sucederam: o companheiro Ferreira perdeu uma perna; a morte do cabo Paulo... Esses fatos alternam-se com pensamentos dirigidos à filha. Sequer podia recordá-la, posto que não a havia conhecido. O narrador retorna a Lisboa para conhecê-la. Chega a casa prestes a explodir em choro. Encontra sua mulher na cama e a filha no berço, ambas fragilizadas no abandono do sono. Ainda com a cabeça cheia dos ecos da guerra, afaga um dos tornozelos descobertos da esposa e, sem uma palavra, recebe-o “inteiro na cova morna do colchão”. Ele sentiu-se fazendo amor por todos os que integravam aquela guerra absurda.
No plano presente, o médico chega com Maria José ao apartamento em que reside. Conta-lhe sobre sua impressão recorrente de não ser bem-vindo em nenhuma parte, estrangeiro até na própria casa. Suspeita que um dia abrirá a porta da entrada e encontrará outros móveis e livros, um homem desconhecido sentado em seu sofá, admirando-lhe a intrusão. Fala à interlocutora sobre a certeza de nunca estar onde está; sente-se ainda em Angola, como há oito anos. Retoma o relato da guerra.
Nenhum sobrevivente fora poupado da mutilação – fosse da alma ou do corpo. Quando um guerrilheiro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) tivera a perna engrenada amputada, “os soldados tiraram uma foto com ela num orgulho de troféu”. A guerra efetivamente os tornara bichos.
O narrador começa a despir Maria José. Desejos enevoados do corpo femininos misturam-se a recordações sangrentas, imperativas, que teimam em erguer-se dentro dele. Consuma precariamente o ato com Maria José. Desculpa-se pelo desempenho ruim, responsabilizando o uísque, a fatalidade de um mau dia.
As lembranças se completam: depois de vinte e sete meses, retornara a Lisboa, a uma Lisboa que nunca poderia se adaptar novamente. Chegara e estranhara a cidade. Dias depois fora visitar as tias e ouvira de uma delas o comentário fulminador: “Estás mais magro. Sempre esperei que a tropa te tornasse homem, mas contigo não há nada a fazer”. Volta para casa decidido a dar um arranjo na sala e talvez deitar sob as cobertas. Nunca se sabe, não é? Podia acontecer uma visita...
(Texto - adaptado - de Clenir Bellezi de Oliveira)
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