A poesia de Augusto dos Anjos é uma porrada. Ela promove um atordoamento que não pode ser apagado do olhar do leitor. O que mais surpreende é a crueza do enunciador, ou seja, daquele que fala no texto literário.
Trata-se de um autor com uma fixação mórbida pela condição humana, especialmente no que ela tem de finita, de perecível. Mas, veja bem, o enunciador tem uma fixação pela morte, e é um sujeito materialista! Assim, o que resta do fenômeno morrer não é o destino da alma, a perpetuação na eternidade, mas a crueza física e medonha da morte. O decompor-se, o verme, a caliça, os ossos mais que secos, o riso último, patético e encaveirado de quem já foi. Vazio entre os ossos, a igualíssima parecença a que nos reduzimos. Eis o choque!
A coisa toda começou quando ele tinha 16 anos e já se viu metido numa polêmica com Eduardo Tapajós, que fazia críticas severas a um soneto publicado por Augusto, encontrando no poema pontos que ele julgava incoerentes ou pouco originais. O poeta soube responder à altura e, usando de ironia e implacável argumentação lógica, encerrou a discussão com o mal-humorado Tapajós.
Enquanto muitos dos chamados intelectuais da época tentavam ridicularizar o estilo feroz, mas infinitamente original do poema, muitos viam no estranhamento causado por sua produção o brilho de genialidade de seu autor. De fato, um pequeno, mas determinado, público anônimo apreciava a poesia incomum de Augusto dos Anjos. Ainda que não lhe decifrassem totalmente o vocabulário duro, cheio de termos científicos e escatológicos, impressionavam-se com a força produzida pela tessitura daquela combinação de sons, pela energia descontrolada, violenta e aparentemente caótica que emanava deles. Sentiam-lhe os vapores negros de um apocalipse iminente. Tal vigor contrastava com sua figura de poeta raquítico.
É autor de um livro só, Eu, ao qual foram acrescentados, em edições posteriores, poemas inéditos, passando a se chamar Eu e Outras Poesias. Entretanto, essa sua obra única fora de tal modo desconcertante e original que o poeta acabou por obter, embora não tenha vivido o bastante para se assegurar disso, um lugar bastante respeitável na constelação de autores brasileiros de talento. A primeira edição dessa obra única foi feita em 1912, durante o período em que o autor viveu no Rio de Janeiro. Como nenhum editor se dispôs a publicá-la, Augusto apelou para o irmão, Odilon dos Anjos, que lhe concedeu o empréstimo que viabilizou a impressão do livro.
Assim fez-se publicar Eu. O nome já era um atrevimento egocêntrico. Afora isso, tínhamos um conteúdo devastador. Na época, duas tendências literárias predominavam: o parnasianismo e o simbolismo. As perspectivas parnasianas de perfeição formal e de frieza, bem como as de sugestão, espiritualidade e de musicalidade vinculadas pelos simbolistas foram violentamente golpeadas.
A rudeza crua da totalidade da obra, o atrevimento com que Augusto dos Anjos expunha nossa condição, seu niilismo destemperado, chocavam a maior parte dos leitores e críticos. É muito duro estar diante de si, sem filosofias, sem religiões que nos redimam, sem paraísos para onde fugir.
Misturando biologia, filosofia hindu e cientificismo a um sentimento escatológico de repugnância pela condição humana temperado pelo pessimismo de Schoppenhauer, o poeta atraiu a atenção não apenas dos críticos literários, mas também de psiquiatras. Muitos dos críticos viram-no apenas como um desequilibrado, um iconoclasta, uma espécie de pervertido que violava hereticamente a arte poética com seu estro doentio.
Augusto pôde, entretanto, colher vários elogios dos que puderam entrever no charco violente de seus versos o brilho de sua inteligência e talento. E assim as apreciações críticas se sucediam, ora escandalizadas pela temática e pela forma do autor, ora ressalvando que, sob a estranheza provocada por seus versos, havia um talento aceso e forte que haveria de ser reconhecido pelo leitor.
Dos Anjos herdou de seu pai o amor pela sabedoria livresca. Muitas eram suas áreas de interesse, além da literatura: ciências naturais, filosofia, matemática, mitologia, física, química, religiões, geografia, história, etc. tinha um fascínio pela lógica como construtora de verdades e valores absolutos neste mundo tão cheio de incertezas e relativismos. A teoria do Monismo de Haeckel, o Evolucionismo de Darwin, as filosofias de Nietzsche, de Schoppenhauer e do budismo são das influências mais notáveis em sua poesia.
Cacos pontiagudos dessas leituras que lhe impressionaram a inteligência emergem brutalmente entre seus versos rigorosamente rimados e metrificados, produzindo uma melodia estranha. Palavras ligadas ao universo científico, misturadas a outras destiladas do mais puro lirismo, produzem uma alquimia que impressiona o espírito do leitor.
Afora a estranheza do conteúdo, há o exotismo da forma. Seus versos graves são estruturados pelo exagero, multiplicado em superlativos; pelas palavras longas, as que inquietam pelo grau violento de expressividade, a sonoridade extrema; pelos já mencionados termos científicos em que nossos olhares aterrados tropeçam. Enfim, todo ele era um inimaginável excesso prisioneiro de um corpo magro.
A métrica e a rima sempre perfeitas calavam os puristas parnasianos. Ele trazia toda sua produção poética de memória. Só de quando em quando sentava-se para registrá-la em papel. Começou a ler sozinho aos quatro anos e, apesar de ter-se formado em Direito, jamais exerceu: quis ser professor de Literatura. Ex-alunos depuseram ser Augusto um mestre impressionante, especialmente pela abrangência de sua cultura, depois pelo gesto expressivo, pelo domínio da palavra pronunciada em voz quase dramática. A ferocidade de sua obra se contrapõe, não só a seu físico raquítico, mas à mansidão de seu trato. Era homem cordialíssimo, menino e homem de atitude branda.
(Texto - adaptado - de Clenir Bellezi de Oliveira)
30 de abr. de 2010
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