1 de mai. de 2010

Patativa do Assaré - um dilúvio de rimas sobre o sertão

Patativa do Assaré é o pseudônimo do poeta Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002). Nosso Patativa não nasceu pássaro nem bardo-profeta. Filho de um casal de agricultores, perdeu a visão do olho direito aos 4 anos. Na Grécia, como no sertão nordestino, a tradição com seus mistérios sempre associou a cegueira à vidência, deficiência visual a dotes especiais; como se o interdito dos olhos, resguardando o indivíduo do logro das aparências, se convertesse num atalho para a contemplação da essência, da verdade e do belo.

O seu percurso é de menino iletrado, ouvinte de leituras de cordéis que logo começa a versejar, depois freqüenta por seis meses uma escola. Alfabetizado, vicia-se em leitura, tornando-se um autodidata. Órfão de pai aos 8 anos, passa então a ajudar a mãe no trabalho agrícola e faz deste sua principal fonte de sustento. Aos 16 anos, consegue eu a mão venda uma ovelha e com o dinheiro apurado encomenda uma viola e torna-se violeiro cantador passando a atender convites para cantorias pela redondezas.

E o Antônio começou a emplumar, em sua metamorfose para pássaro-poeta, quando abandonou a espingarda e o bodoque, seus instrumentos de caçadas, pela viola, convertendo-se, então, de matador em imitador de passarinhos. Esse processo culminará com uma viagem à Amazônia custeada por um tio. Contava então com 20 anos. Após seis meses de peregrinação, com saudades da família e da terra tão seca, mas boa, Antônio volta da Amazônia agora devidamente crismado Patativa, pseudônimo adotado a partir de um artigo de jornal em que um crítico louvava a espontaneidade dos seus versos comparando sua sonoridade melodiosa à do canto da pequena ave do sertão.

As performances patativanas são uma legítima expressão da poesia oral, prevalecente entre públicos iletrados, prática existente desde a Antiguidade greco-latina, passando pelos jograis, trovadores e menestréis medievos e medajs (cantadores épicos das feiras muçulmanas). Mas as performances do nosso jovem poeta tinham uma peculiaridade. A certa altura, o desafio de viola era interrompido, e ele então se punha a recitar seus longos poemas, circunstância que despertava entusiasmo, estima e aplauso do público mais do que o próprio desafio. Isso consolidou o seu desejo de afirmar-se mais como poeta do que como repentista.

Transcorreram 31 anos nesse regime de oralidade primária (ausência de escrita e recitação face a face), até que se deu o encontro de sua voz com a mídia radiofônica. Escutou-o então um dia, pela Rádio Araripe, José Arraes de Alencar. Ao pedir ao autor cópias de outros poemas para conhecê-los melhor veio o espanto: nada daquilo existia fora de sua memória, informou-lhe o poeta, salvo uns poucos textos que vez por outra escrevia. Pasmo, Alencar fez-lhe de imediato uma advertência: “Mas homem, se você morre agora, todo esse tesouro de poesia se perde com você! Vamos editar um livro seu”. Nasciam ali as primeiras gestões para a edição de Inspiração Nordestina, publicado em 1956. O volume de estréia contou com cerca de 66 poemas. Isso talvez sirva para nos dar uma medida da memória verdadeiramente épica desse mito nordestino.

A poesia oral de Patativa do Assaré chegava, assim, simultaneamente à mídia impressa e radiofônica, o que contribuiu para ampliar enormemente seu público e quem sabe até preservá-la de um injusto, lamentável e completo desaparecimento. Outros livros se seguiram e, a partir de Cante lá que eu canto cá (1978), verifica-se um surto de interesse pela obra de Patativa entre o público de classe média, intelectuais e estudiosos da academia, a ponto de podermos contar hoje com várias teses universitárias sobre sua obras.

Entretanto a fartura oral de sua poesia faz com que seja infinitamente mais agradável ouvi-lo do que lê-lo. Conhecer a poesia de Patativa é, antes de tudo, ouvi-lo. E para os que não tiveram a sorte de fazê-lo enquanto ele viveu, restam hoje alguns CDs e vídeos em que se tem um registro, necessariamente redutor, da emoção provocada por suas performances.

É interessante notar que o poeta transita com o maior desembaraço entre a língua matuta e a língua padrão, conforme os objetivos que tem em mente, ou o público que deseja atingir ou, ainda, o estatuto que pretende imprimir ao seu recado de humanismo e fraternidade. Num passo inaugural dado por Patativa, a língua matuta não é razão para riso e chacota, mas é alçada de variante socialmente desprestigiada ao estatuto de um instrumento legítimo de expressão da verdade que traduz os interesses de uma classe social espoliada.

Há na riqueza plural de sua obra desde a poesia social engajada, reivindicativa, com a denúncia da exploração patronal, coronelística e apolítica, o descaso do governo para com os pobres, o drama dos agricultores sem terra, a manipulação sobre as políticas de combate às secas, os deslocamentos, as migrações vergonhosas a serviço de poderosos e latifundiários, fazendo do povo gado de currais eleitorais ou reserva de mão-de-obra de um capitalismo voraz beneficiário das desigualdades regionais; até outra vertente poética em que aflora a poesia-resistência atravessada por lampejos de tenacidade e esperança. Poesia transbordante de festa, alegria e humor; celebração da natureza e ritos comunitários e festivos. Poeta social, lírico, épico, satírico e performático.

Com Patativa do Assaré surge no horizonte de nossas letras um poeta popular que dá voz ao clamor do povo, com uma poesia que promove a libertação da figura humilde dos que não tinha vez, nem voz. Pois têm agora ao menos voz: a voz vivda de Patativa do Assaré.

(Texto - adaptado - de Cláudio Henrique Sales Andrade)

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