Em 1855, o poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892) lançava suas Folhas da Relva. Na ocasião, ocupava um posto no Ministério do Interior de seu país. Ao ler a obra, o ministro o despediu. Livreiros pediram o recolhimento dos 800 exemplares da edição modesta. O autor havia dado o livro a vários homens de letras de sua época e recebeu deles um silêncio constrangedoramente reprovador. Mas um, e apenas esse, lhe enviou uma carta saudando a obra: Ralph Waldo Emerson.
Nessa solidão absoluta surgiu aquele que mais tarde seria consagrado como uma das maiores vozes poéticas dos Estados Unidos e um dos grandes arautos do modernismo da literatura mundial. O livro, que apresenta a quase totalidade da obra de Whitman, teve nove edições sucessivas, corrigidas e aumentadas, sendo a última coincidente com o ano de sua morte. Vê-se que o autor não esmoreceu diante da incompreensão do público. Foi reconhecido na Alemanha, na França, na Irlanda e na Inglaterra, antes de alcançar a consagração no país que cantou de modo tão genial e otimista.
Destarte o impacto inicial provocado por seus versos, eles se tornariam uma referência para gerações de literatos e artistas que viriam no rastro de suas ousadias formais e temáticas. O próprio Whitman, em numerosas passagens de Folhas da relva, coloca-se como precursor de uma revolução.
Homens como Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Arthur Rimbaud com suas obras geniais, cada um a seu modo, anteciparam o Modernismo e a Literatura Contemporânea. São indiscutivelmente esplêndidos criadores, mas nenhum alcançou a plenitude de consciência da revolução que estavam engendrando, como Walt Whitman. Quem sabe Baudelaire e Rimbaud, porém ambos estavam ainda presos às formas da tradição. Mallarmé fez experimentos gráficos em seus poemas que chegaram a influenciar o movimento concretista dos irmãos Haroldo de Campos e Augusto de Campos e de Décio Pignatari, mas o grande poeta francês tinha 13 anos quando se publicava a primeira edição de Folhas da relva.
A insurreição whitmaniana começa pela abolição da métrica e da rima regulares. Seus poemas apresentam uma fluidez de prosa, mas uma cadência poética extraordinária, um lirismo incontestavelmente atordoante e, ainda hoje, novo. Além disso, sua linguagem apresenta uma espontaneidade, um coloquialismo que sabem ser literários.
Qualquer que seja o tema desenvolvido por Whitman, a intensidade verbal é a grande constante. Ela é expressa por hipérboles ousadas, metáforas vertiginosamente originais, sendo impossível ao leitor não se deixar levar por um redemoinho de novos eixos de sensações. Tão intensas são elas que beiram o físico. Walt Whitman foi um dos primeiros homens deste planeta a sentir que a dinâmica do mundo estava mudando. Sua obra é veloz, contundente, tem o brilho de uma sensibilidade e de uma inteligência que não sucumbiram ao tempo, antes o anteciparam para depois o ratificarem. Ele anunciou a grande revolução modernista que seria amplamente perpetrada por aristas como Vladimir Maiakovski, James Joyce, Fernando Pessoa (com Álvaro de Campos, principalmente) e tantos outros.
O amplo apelo sensorial é um aliado fundamental na dinâmica do poeta e um instrumento constante para expressar sua perspectiva de mundo: concretizando sensações, tornando-as viscerais. A visão, o tato, a audição, o paladar, o olfato estão presentes e o corpo é o grande instrumento de captação do mundo, o grande laboratório das sensações. O corpo pode ser instrumento de interações violentas com o mundo. Há uma ânsia feroz de abarcar o todo fisicamente e por inteiro de uma só vez, com a pluralidade que a modernidade contém, de fundir-se ao universo.
No afã de, no dizer de Álvaro de Campos, “sentir tudo de todas as maneiras”, Whitman integrou a sexualidade, especificamente a bissexualidade. Sua poesia apresenta reiteradas considerações sobre o ser “fêmea” e ser “macho”. Sua primeira grande preocupação é alertar, reiteradas vezes, para o fato de que ser homem ou ser mulher tem o mesmo peso, a mesma importância, em termos de ordem de mundo.
Walt Whitman foi, como se vê, um precursor do feminismo. Sua ânsia de comunhão com a humanidade prevê homens e mulheres e inclui a atração sexual. Considera que não somos seres pertencentes a uma determinada ordem social, somos também seres sexuais, dotados de desejo, e o desejo é de ordem física, não moral.
A bissexualidade whitmaniana é cândida, exposta de maneira quase ingênua, como se fosse algo facilmente assimilável pela sociedade de seu tempo. Notem-lhe a ousadia: se no século XXI ela é encarada com reserva, e freqüentemente, com repulsa e reprovação por uma maioria do corpo social, imagine em meios do século XIX. Ele não temia as mulheres, ele não desdenhava os homens em sua obra, acolhia-os todos como objetos válidos do desejo.
Uma tendência a se salientar é que a temática da sexualidade em Whitman vem normalmente associada a um sentimento amoroso que beira o fraterno. Esse sentimento fraterno aparece como um anseio de comunhão com a humanidade que vaza em outros momentos da obra do autor, como quando ele trata da questão do nacionalismo.
Outro eixo fundamental nas Folhas da relva é a liberdade. Depois da Independência Americana (1776) os ideais dos Estados Unidos começaram a se delinear. Entre eles, a idéia de que se construía naquele momento da História um país “livre”: o país das “oportunidades”. O poeta via-se num tempo-clímax da História de seu país. Ele podia ouvir os tambores de uma revolução a ser liderada pelos Estados Unidos, que abriria horizontes em todas as civilizações.
Sua poesia traduz toda uma moralidade nova, liberal, sem ser libertina, espontânea; um código de ética emancipador que, ele acreditou, regeria os novos tempos. Acreditou também ser um profeta dessa nova ordem benigna, que, infelizmente, como se sabe, não foi concretizada. Talvez o momento em que essa aproximação mais tenha ocorrida em termos ideológicos tenha sido com a geração beat, nas décadas de 1940 e 50; mas, particularmente com os hippies nas de 1960 e 1970. Ambos os períodos tiveram influência confessa de Whitman.
Infelizmente equivocou-se quanto ao papel que teria seu país enquanto ponto de irradiação desse ideário libertador. A nação norte-americana ainda é conservadora. Sua moralidade é retrógrada; sua arrogância, extraordinária; suas ambições de manutenção da hegemonia político-econômica beiram a psicose; a vida humana só tem valor se for de um dos seus ou de um aliado, assim mesmo as perdas são rapidamente assimiladas pelas estatísticas; sua burguesia é mais burguesa que a do resto do mundo.
(Texto - adaptado - de Clenir Belezzi de Oliveira)
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