3 de mai. de 2010

Moby Dick - a fúria da baleia branca

“Chamai-me Ismael.(...) Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parando involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam... então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é o meu substituto para a pistola e a bala.”

Nesse tom misto de fábula e ironia filosófica, começa uma das narrativas mais fascinantes e envolventes já escritas, o romance Moby Dick, de Herman Melville. Publicado pela primeira vez em 1851, quando o autor tinha 32 anos de idade, este livro não foi recebido com entusiasmo por público e crítica, ficando aquém da popularidade obtida por algumas das primeiras obras de Melville, como Typee (1846), Omoo (1847) e Mardi (1849). De fato, durante muitos anos Moby Dick foi considerado como mais uma narrativa de aventuras marítimas, sem maiores atributos que o de proporcionar bom entretenimento para o público jovem.

A importância dessa obra de Melville para a literatura mundial só foi reconhecida na época da Primeira Grande Guerra, mais de vinte anos após a morte do autor. Movy Dick é, sem dúvida, uma maravilhosa narrativa de aventuras marítimas que deleita os apreciadores desse gênero literário, escrita com a propriedade de quem de fato vivenciou a experiência de homem do mar. O texto recende a maresia, tal a intimidade do autor com a lida marinheira. Mas suas qualidades não se limitam a isso.

Lançando mão de sua experiência pessoal, Melville constrói com extrema vivacidade os personagens, dando vida e personalidade aos marinheiros que embarcam juntamente com Ismael, o narrador e alter-ego do autor, no navio baleeiro Pequod.

Um tom de saborosa ironia perpassa boa parte da narrativa e, associado ao linguajar marinheiro do narrador e dos personagens, proporciona uma leitura extremamente prazerosa, desde a introdução, que conta com fragmentos de textos sagrados e profanos com referências a baleias, “fornecidos pelo sub-bibliotecário de um sub-bibliotecário”, até à hilária ceia de Stubb um dos arpoadores que, enquanto come seu filé de baleia, ordena ao mal-humorado cozinheiro que faça um sermão aos tubarões que se banqueteiam com o cadáver da baleia arpoada, para que estes tenham modos ao comer.

O texto narra a viagem do Pequod, descrevendo com riqueza de detalhes e observações bem-humoradas o cotidiano da caça ás baleias, com capítulos que são verdadeiros tratados cetológicos, sem no entanto enveredar pelas descrições extremamente técnicas, como em alguns textos de Júlio Verne.

Cada personagem tem uma personalidade singular, que propicia ao autor tecer argutas considerações sobre a essência humana. Queequeg, o selvagem arpoador que se torna companheiro inseparável de Ismael, provavelmente moldado por Melville com base em sua convivência com selvagens das Ilhas Marquesas, abriga sob sua aparência ferozmente pagã um caráter nobre e generoso, em contraponto com a avareza e a mesquinharia de um dos proprietários do Pequod, o capitão Bildad, “educado de acordo com os mais estritos preceitos da seita quacre”.

Starbuck, primeiro piloto e arpoador do Pequod, “era um homem sóbrio, firme, cuja vida, na maior parte, era uma eloqüente demonstração de ações, e não um suave capítulo de sons.”, e “inclinava-se fortemente para a superstição que, em algumas constituições, parece antes originar-se da inteligência do que da ignorância”.

O segundo piloto e arpoador, Stubb, além de ser um gourmet, apreciador da carne de baleia, era destemido, alegre e despreocupado. “Entre outras coisas, o que fazia de Stubb esse homem despreocupado e destemido, carregando tão alegremente o peso da vida neste mundo tão cheio de bufarinheiros preocupados, curvados sob seus fardos, era talvez o seu cachimbo. Porque, como o seu nariz, o seu cachimbo pequeno era um dos traços regulares do seu rosto. E tanto se podia esperar ver Stubb sair do camarote sem o nariz como sem o cachimbo”.

Flask, terceiro piloto e arpoador, era “muito belicoso no que se referia a baleias, e de certa maneira parecia pensar que o grande leviatã lhe tivesse feito uma afronta pessoal, hereditária; portanto era para ele uma espécie de ponto de honra destruí-lo onde quer que se encontrasse”.

O capitão Ahab (ou Acab, em algumas versões), o temível comandante do Pequod, tendo numa das pernas uma prótese feita de osso de baleia, e marcado por uma terrível cicatriz que nascia na raiz dos cabelos e lhe desfigurava o rosto, levava na alma uma chaga não menos atroz, transtornado pela idéia fixa de aniquila o monstro que lhe causara tão profundos ferimentos ao corpo e ao esírito: Moby Dick, a mítica baleia branca.

Nesse embate entre o homem e a fera é que reside o substrato que confere ao livro o status de obra literária essencial. A busca de vingança de Ahab extrapola o caráter pessoal, e em sua ira fundamentalista assume a conotação de uma cruzada do bem contra o mal, da luta do homem racional contra as forças brutais e obscuras do universo. Nessa cruzada solitária em que caça e caçador se equiparam em ferocidade, Ahab, alimentado pelo fervor religioso de seu ódio, arrasta consigo a tripulação do navio para o destino inexorável do duelo final com a besta, que prevalecerá matando a todos, com exceção de Ismael, que sobrou para contar a história.

O sobrevivente era o único dentre a tripulação que não havia nunca antes embarcado em navios baleeiros, embora tivesse experiência como marinheiro mercante. E, de maneira simbólica e irônica, o que lhe salva a vida quando o Pequod naufraga, vítima da fúria da baleia branca, é um ataúde que lhe serve de bóia até que ele seja resgatado pelo Rachel, um navio com que haviam cruzado anteriormente. Após os capítulos finais, que descrevem os três dias da luta brutal com a fera, num crescendo de tirar o fôlego, o epílogo do livro inicia-se com uma frase das Sagradas Escrituras, extraída do livro de Jô: “E só eu escapei para vos dar a notícia”. Num tom grave, quase religioso, o drama de contextos simbólicos e míticos é magnificamente encerrado:

“Com o ataúde por bóia, flutuei o dia inteiro e uma noite, sobre um oceano tranqüilo e como que sepulcral. Os tubarões respeitosos passavam deslizando junto a mim, como se tivesse cadeados na boca; os gaviões do mar voavam com os bicos embainhados. No segundo dia, um veleiro aproximou-se mais e mais e recolheu-me afinal. O errante Rachel, voltando em busca dos seus filhos perdidos, apenas encontrou um outro órfão”.

(Texto de José Fernando Leite)

Um comentário:

Simone disse...

"para a cor roxa: ataúde"
hoho
ele contou o final!!!! o.Ô
lembrou um pouco o "relato de um náfrago", do gabriel garcía marquez :}