Houve um povo que, dentre todos os outros, teve importância vital na formação da cultura ocidental: o grego. Ele desenvolveu uma civilização altamente sofisticada na Filosofia, nas Ciências e nas Artes. Tinha um talento especial para a decodificação do universo. Seus dons e habilidade lançaram uma luminosa teia de influências que chega até nossos dias. Encontrâmo-la em autores contemporâneos consagrados, como Fernando Pessoa e Guimarães Rosa.
A cultura grega era fundamentalmente antropocêntrica e racional. Sua arte tinha a beleza como objetivo nuclear; buscava o equilíbrio, a linearidade e a harmonia. Nas Artes Plásticas, alcançou seu apogeu entre os século IV a.C. E I d.C. Na Literatura, esse apogeu foi anterior, entre os séculos IV e VI a.C., sendo o primeiro povoa escrever da esquerda para a direita e de cima para baixo. Entretanto, nos tempos anteriores a esse fato, muitas lendas e mitos foram criados e consagrados em histórias passadas oralmente de geração para geração.
Esses mitos geralmente contêm um sentido simbólico que transcende o tempo a que pertenceram, legando ao mundo modelos e exemplos que vão além das aparências circunstanciais. Eles podem ser retomados, adaptados e recriados em novas conjunturas, prestando-se a situações incrivelmente atuais. Até mesmo a Psicologia fez uso deles para designar arquétipos, ou seja, modelos exemplares, típicos, de comportamento. A nós interessarão, sobretudo, os avanços na Filosofia e nas Artes, principalmente na Arte Literária.
No século XX a.C., a Grécia era formada por vários povos. O povo heleno teve uma formação longa e tumultuada. Os pelasgos, nativos da península grega, sofreram a invasão dos aqueus e de vários outros povos, como os cretenses, os jônios, os eólios, os dórios, que disputaram espaço e poder naquela região. As várias lutas empreendidas, a trajetória dos povos que se enfrentaram, suas religiões e suas crenças foram se intercalando, gerando fábulas, mitos e histórias. Cantadas pelos aedos ou rapsodos, essas histórias entraram para a memória e o imaginário popular. Foram transformadas e enriquecidas. Só no século IX a.C. Elas foram reunidas em duas grandes epopéias: a Ilíada e a Odisséia.
O gênero épico, ou narrativo, é assim classificado por apresentar como tema a narração de fatos extraordinários, reais ou fabulosos, envolvendo feitos heróicos. Essas ações são narradas em versos, por meio de um narrador onisciente, formando um longo poema, dividido em cantos, denominado “poema épico” ou “epopéia”. Na epopéia estão presentes os elementos essenciais da narrativa: o enredo, o narrador, as personagens, o espaço e o tempo. Em geral, apresenta também a intervenção de entes sobrenaturais ou deuses que antecipam ou impedem os acontecimentos.
Ilíada e Odisséia são as mais antigas epopéias de que se tem notícia. Foram escritas aproximadamente no século IX a.C. Homero seria seu autor, mas há controvérsias a esse respeito. Alguns críticos afirmam que ele nem teria existido e que a autoria dessas obras seria de um anônimo ou de mais de uma pessoa. Não importa. O que está em questão é a profunda beleza e grandiosidade de forma e conteúdo que elas apresentam – elementos que servirão de modelo e inspiração para várias produções da literatura ocidental.
A Ilíada tem como assunto a guerra de Tróia (originalmente esta cidade se chama Ílion, daí o nome Ilíada), que ocorreu presumidamente no século XIII a.C. Apesar de o cerco feito àquela cidade pelos aqueus ter durado dez anos, apenas o último ano é focalizado. Referências aos conflitos anteriores ocorrem por meio de digressões feitas pelo narrador e pelas próprias personagens. Os fatos são lendários, sem integral comprovação histórica; porém, arqueólogos têm feito descobertas que confirmam certos detalhes da narrativa.
O motivo do ataque dos aqueus a Tróia é o rapto de Helena, esposa de Menelau, por Páris, que ali se refugia com a moça. Os aqueus, chefiados por Agamenon, cercam a cidade, tentando resgatar Helena. O chefe dos troianos é Heitor, irmão de Páris. Os deuses tomam partido na peleja: Juno, deusa da fertilidade; Atenas, deusa da sabedoria e das artes; Netuno, senhor dos mares, ficam ao lado dos aqueus. Marte, o deus da guerra e da força; Vênus, deusa do amor e da fertilidade, e Apolo, deus da beleza, ao lado dos troianos.
Depois de inúmeras batalhas, os aqueus conseguem lançar mão de uma estratégia para vencer as muralhas da cidade: deixam à sua porta um gigantesco cavalo de madeira que traz no seu interior os mais bravos guerreiros. Os troianos, presumindo que fosse um presente, o acolhe. Já dentro da cidade, os aqueus a incedeiam e a destroem, vencendo, enfim, a guerra.
Enquanto Ilíada é uma representação do período heróico e da vida guerreira, a Odisséia representa o cotidiano daquele povo. Odisséia narra o retorno de Ulisses (ou Odisseu, daí o nome da obra) após vinte anos de ausência, enfrentando as mais cruentas batalhas. Ulisses é rei de Ítaca e um dos chefes que combateram os troianos ao lado de Agamenon.
Antes de partir, ele era casado com Penélope e teve um filho, Telêmaco. Enquanto o marido não logra êxito em sua empreitada, a bela Penélope é assediada por vários pretendentes que querem desposá-la e herdar o poder e os bens de Ulisses. Entretanto, a caminho de Ítaca, Ulisses perde seus companheiros de batalha e cai prisioneiro da deusa Calipso, que se apaixona por ele e o mantém na ilha de Ogígia por sete anos. A deusa Atenas apieda-se dele e intervém junto a Zeus para auxiliá-lo no retorno ao lar.
Penélope tenta protelar a decisão de se casar novamente, tecendo uma mortalha para Laerte, pai de Ulisses, com o pretexto de eleger um dentre os pretendentes apenas quando esta estivesse pronta. Ela tece a trama durante o dia e a desfaz à noite. Uma de suas criadas, porém, conta seu artifício para um dos pretendentes e ela se vê obrigada a aceitar as condições daqueles que disputavam sua mão: haveria um torneio, aquele que saísse vencedor a desposaria.
Enquanto isso, Ulisses, graças à intervenção de Atenas, consegue sair do jugo de Calipso e, depois de enfrentar ainda algumas dificuldades, chega a Ítaca. Disfarça-se de mendigo e não é reconhecido por ninguém, exceto por um cão, que, ao vê-lo, vem morrer a seus pés. Penélope propõe aos pretendentes que usem o arco de Ulisses para atirar uma flecha através de uma série de anéis. Nenhum deles consegue retesar o arco. Mas o falso mendigo o toma e executa a tarefa com destreza, vencendo o torneio. A seguir, alia-se a seu filho Telêmaco e massacra todos os pretendentes usurpadores. Faz-se então reconhecer por Penélope e reassume seu lugar.
(Texto de Clenir Bellezi de Oliveira)
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2 comentários:
não tem quem supere o povo grego. não tem! :~ pode inventar conhecimentos, e avanços científicos e tecnologia, e filosofia e oq mais vc quiser. não vai se repetir mais, não. :} (melhor postagem! :D)
Na verdade considero os Persas da mesma época um povo muito mais sofisticado e avançado.
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